Escritor João Tordo na Academia Sénior das Avenidas Novas

O escritor João Tordo aceitou um convite da professora Rosário Paixão, que leciona a disciplina de Literatura e Cultura Portuguesa da Academia Sénior de Avenidas Novas, para uma conversa com os seus alunos.

Numa sessão muito concorrida, que encheu a biblioteca da sede da Junta de Freguesia de Avenidas Novas e contou com a presença atenta da presidente Ana Gaspar, do vogal José Escarameia e do assessor Pedro Oliveira, falou-se da escrita e falou-se da vida.

“O Ano Sabático”, de 2013, e “O Paraíso Segundo Lars D”, de 2015, foram as obras que serviram de ponto de partida para esta aula estimulante. Respondendo aos reptos de Rosário Paixão e, mais tarde, às perguntas dos alunos, o vencedor do Prémio Literário José Saramago de 2009 foi-se aventurando pela história dos seus livros, que está indelevelmente ligada à história da sua vida. João Tordo contou que é muito observador, que vai registando aquilo que observa e que, embora possa parecer que a realidade não pode dar lugar à ficção, é isso que de facto acaba por acontecer.

Explicou que parte da personagem para a construção da história, que cada livro é uma aventura e que muitas vezes não sabe onde chegará nem se chegará ao fim. Considera que a experiência é tão emocionante para ele como para o leitor. Aliás, defende que se deve ler como um escritor e escrever como um leitor, embora o que lemos não seja o que foi escrito, pois cada um lê com a sua voz.

Tordo, um estudioso do Pentateuco e do Novo Testamento, traçou paralelos entre a mitologia grega e a mitologia cristã e parabolizou sobre o que é realmente ter fé. Explorou o que nos fascina no percurso de um protagonista, ilustrando o tema com a narrativa de Jesus, culminando na cruz com a exclamação “Pai, porque me abandonaste?”, recordando que a boa literatura nos ajuda a compreender emocionalmente.

Segundo o autor, que tem 13 romances publicados e se encontra a trabalhar em mais um livro a lançar em 2020, a forma como se conta é quase tão importante como o que se conta, não se coibindo, portanto, de assumir uma voz feminina ou de usar múltiplas vozes na narrativa.

Confrontado com o facto de os novos escritores viajarem bastante mais do que os de gerações anteriores e de ele próprio ter viajado muito, João Tordo defendeu que viajar é frutuoso, mas é que necessário reservar tempo para escrever. A escrita deve estar sempre em primeiro lugar. É um processo que exige uma enorme dedicação, disciplina e até obsessão. A este propósito, falou inclusivamente da angústia de ter de abandonar a escrita para satisfazer outros compromissos. Não foi em vão que a certa altura disse: “Escrevo romances de aventuras sobre a aventura de escrever romances.”